sábado, junho 03, 2006
Contos do Velho Eddie - A Dança da Morte
sexta-feira, maio 19, 2006
A Casa - Parte II - Yellow Submarine
Giustizia mosse il mio alto fattore:
Dinanzi a me non fuor cose create
Li sem quase nada entender daquela língua estrangeira, mas tive uma forte impressão de já ter visto aqueles versos em algum outro lugar. Pensei em tentar abri-la mas as imensas trancas que a cerravam pareciam gritar em coro para mim que eu não iria conseguir, então dexei-a e olhei com mais confiança para as portas do outro lado. Uma delas devia levar a Liena. Tomei o último trago de rum que ainda me restava e fui em direção a uma das portas. Ao passar por um dos corredores ouvi uma música que logo julguei conhecer. Parei ali e logo me vi cantarolando: "... we all live in a yellow submarine / yellow submarine / yellow submarine...". Olhei para o soturno músico que agora exibia um tímido sorriso. Agradeci-o gestualmente e segui corredor a dentro.
sexta-feira, março 31, 2006
A Casa - Parte I - Liena
alma parecia querer livrar-se ainda aquela noite do meu corpo porque pouco depois de entrar na água, e arrastado por uma forte correnteza, me vi caindo de uma altíssima queda d'água. Já sem esperanças e tentando em vão agarrar-me à coluna de água que me empurrava para baixo percebi uma corda que descia por arás da cachoeira. Consegui milagrosamente segurar-me na corda, que pela aparência, julguei ser de algum praticante de rapel. Desci pela corda os poucos metros que faltavam para o fim da queda e à certa altura do rio lá embaixo a parede da queda deixou de existir dando entrada para uma ampla caverna.
Segui tateando às escuras pelo rochoso túnel e logo percebi uma tênue luz um pouco a frente. Fui em sua direção e lá chegando percebi que a luz saía por baixo de uma imensa porta de madeira. Empurrei a porta sem convicção mas para minha surpresa ela gentilmente se abriu deixando à mostra um pequeno cômodo, iluminado por tochas, onde se encontrava, procurando algo em uma das estantes dali, um homem gordo de longos bigodes. Perguntei se ele me mataria, ironizando a mim mesmo pelo que já tinha passado aquela noite. Ele respondeu muito gentilmente que não, que na verdade estavam à minha espera. Estranhei um pouco a resposta, mas encarei como sendo bem melhor que um lacônico sim. Ele me conduziu a um rudimentar elevador a um canto da saleta e o fez subir sabe-se lá quantos andares. Quando o elevador parou saímos em uma ampla sala onde trigêmeos, desafiando Isaac Newton, tocavam música clássica sentados no teto. O mordomo me conduziu a uma cadeira e pediu que eu esperasse dizendo que logo a casa iria estar repleta de convidados. Perguntei o que tinha para beber e diante do "qualquer coisa que eu desejasse" escolhi um rum de fabricação pirata da época das grandes navegações. Ele bem eficiente me trouxe além da bebida, roupas limpas e secas. Troquei de roupas e fiquei ali na sala, ouvindo o agradável som que vinha do teto e saboreando o rum com a esperança da casa se encher de interessantes convidados.
Depois de alguns goles da fortíssima bebida que o gentil mordomo me trouxera vejo-o recebendo na grande porta principal uma mulher. De onde eu estava, a uma certa distância da porta, e ajudado ainda também pelo álcool, julguei estar vendo aquela que amei. "Ah, como era bela minha amada! Acho que os deuses a levaram por puro capricho. Não permitiriam a um simples mortal gozar do amor de tão bela mulher". Quando o mordomo deixou a mulher que me trouxe saudosas lembranças de minha finada noiva pude olhá-la com mais clareza e quando o fiz a pulsação no meu peito esquerdo saiu para passear. Atordoado, nem conseguia me mexer ao ver novamente aquele rosto que, como o de Helena, lançaria mil barcos ao mar. Era ela, sim, ela! E trajava o vestido que eu havia lhe dado há poucos meses para o nosso casamento. Mas como podia ser? Estava bêbado, não louco! Eu a vi, morta, dentro de um caixão. Eu chorei sobre seu corpo pálido. Eu não durmo desde que ela se foi. E agora a via, tão viva como fora em vida. Ela veio em minha direção, e a cada passo que dava, mais transtornado eu ficava. Tentei levantar para abraçá-la, mas minhas pernas não obedeceram. Tentei falar-lhe, mas como as pernas, minha boca não se mexeu. Ela chegou bem perto e sentou-se ao meu lado. Encarei-a com um misto de horror e felicidade, sem saber o que fazer. Um dos trigêmeos que tocavam no teto sentou-se perto de nós dois e ao fazê-lo me desviou um pouco daquele eterno instante de agonia. Olhei para ele e imediatamente voltei-me para ela. Duas palavras saíram como que fugindo da minha boca:
- É você!?
O espectro de Liena, conforme julguei ser aquela aparição, me deixou sem resposta. Apenas me olhava fixamente ansiando por alguma coisa mais expressiva que o 'é você'. Eu simplesmente não sabia o que dizer. Seus olhos negros de outrora brilhantes agora tinham um aspecto sombrio, mórbido, assustador. E ela os atirava como flecha sobre os meus que começaram a inundarem-se em lágrimas brotadas em emoções indescritíveis. Quando senti que ia deixar escapar mais umas palavras veio até nós um rapaz, aparentando um mochileiro, e perguntou alguma coisa que eu em meio aquela tempestade cerebral não pude entender. Ele virou-se para o músico que sentara-se ali perto, mas este, meio que em transe, também pareceu não lhe entender. Ele virou-se e no mesmo instante veio caindo alguém da escada, gritando como um louco. O mochileiro pareceu ir lhe prestar algum auxílio mas logo subiu as escadas. Perdido nesses instantes entre a chegada do mochileiro e a queda na escada voltei-me para a fantamasgórica Liena. Mas pra onde ela foi!? Já não estava ao meu lado. Enxuguei as lágrimas e olhei ao redor, mas nem sinal dela por ali. Acenei para o músico que ainda estava ali, meio que nas nuvens, e perguntei:
- Viu pra onde raios ela foi?
terça-feira, dezembro 06, 2005
O Andarilho
- O que você quer!?
- Eu quero só o ‘fogo’ aí mano, pra acender o branco aqui, pode ser?
- Que fogo que nada, sai fora ô mendigo nojento! – respondeu por trás da montanha de músculos a loirinha com o cigarro aceso.
O andarilho nada falou. Virou-se para ir embora e, ao dar alguns passos na direção oposta aos jovens, hesitou e voltou. Com um ar solene, apesar da embriaguez e de suas vestes imundas, começou a falar-lhes num tom de voz admirável:
“Vêem, assim é a sua sociedade. Vivo a vagar por esse mundo há bastante tempo e o que aqui vejo é o que há em todo lugar. Este simples isqueiro que aí está, e que me traria, ainda que em devaneio, a minha saudosa mãe, é como o capital nesse vosso desastroso sistema social. Poucos o têm o bastante para viver dignamente, aos muitos que nada tem restam apenas, além do árduo viver, grandes ilusões”.
O que ele teve como resposta foi uma sonora gargalhada, misturada a palavras como “louco”, “maluco” e “bêbado”. O andarilho simplesmente virou-se, tragou seu cigarro apagado, soprou o ar e sorriu para sua mãe que, como ele a vislumbrava, lhe retribuía o sorriso.
terça-feira, maio 10, 2005
Thomas
A Força
Uma viagem sem volta, só de ida
Humm, e o que é a morte?
Ah, esta só encara quem é forte
Mas não há força que a vença, ou há!?
Sim há, e quando descobrires tal força,
Enfim te libertará
E de que me libertarei?
Da vida ora, e assim não só irá
Mas também poderá voltar
E em vencendo a morte, o que sucederá?
Isso não sei, pois cá estou em vida
Não conheço o lado de lá
E os fracos, que fazer quando a morte apavora?
Ah pobres coitados, não há nada a fazer
Ela impiedosamente os devora
E onde acho essa força? Onde raios ela está?
Está em você mesmo, mas nunca a busque
Ou jamais a encontrará
sexta-feira, abril 08, 2005
Sorvetes
| - Me dá aí um pouco do teu sorvete. - Deixa de ser gulosa Joana, já tomou dois... Não dou! - Por favor, só um pouquinho, só um tiquinho assim... - Mas que merda, nem se pode tomar um sorvete em paz. Pega, vai comprar outro pra ti, eu hein, tem o olho maior que a boca. |
"A sorveteria é muito longe, to tão cansada... quer saber, o melhor que faço é guardar essa grana... dou um tempo aqui fora e digo pro João que o sorvete caiu no chão" Minutos depois: | |
A Face Oculta do Orkut
O ano é 2133. | |
- Foi o que o professor disse... gravei a aula como de costume, a senhora não quer ouvir comigo? "- Olá turma. Hoje mostrarei a vocês o princípio da revolução, o começo do “quase fim”. Conforme vimos na semana passada, em meados do ano 2000 os computadores eram fundamentais na vida das pessoas daquela época. | |
terça-feira, abril 05, 2005
Caos
O caos enfim instituído
Meninos assassinos
Por quem dobram os sinos?
Sentenças de morte por inanição
Astronautas na praia em pleno verão
Tubarões brancos no aquário do meu quarto
Crianças choram a dor do parto
Sim, aquilo na rua são corpos!
Não, nem todos estão mortos
Velas no asfalto, jornais em vermelho
Monstros são os mais belos no espelho
Fadas madrinhas baleadas ao chão
Bruxas passeiam na prisão
Coelhos no topo da cadeia alimentar
Corpos saciam a sede do mar
Frutos maduros já não servem
Os verdes é que se perseguem
O caos instituído
Nada mais me faz sentido.
quinta-feira, fevereiro 10, 2005
Relatório de um pseudo-biólogo alcolizado
| São 12:17 da madrugada de sábado do mês da festa de momo e aqui estou, diante de um monitor que me mostra uma imagem meio fosca (hoje mesmo comentei com os amigos sobre como ficou bom o “serviço” feito nele quando da sua “queimação”) e sob |
uma iluminação precária que vem do banheiro do quarto onde estou já que o maldito bulbo da lâmpada deste agradável recinto teima em não querer incandescer-se, o que me força a teclar de forma lenta este texto que até esta linha não sei de que irá se tratar e muito menos pra que cargas d’água esteja sendo escrito. Já que não tenho um tema definido até então, vou tentar escrever algo de que toda pessoa na minha condição, de homem, no sentido sexual da palavra, têm sempre em mente: mulheres (nesse momento pensei em escrever sobre cerveja, mas é um tema bastante complexo comparado a mulheres e deixo pra outra noite sem sono escrever alguma bobagem sobre este líquido). Como estou meio fraco de mulheres ultimamente (esse meio fraco é em virtude de qualidade e não de quantidade) vou tentar fazer uma análise a partir de fatos e dados observados nas últimas horas como se fosse um daqueles caras (acho que são biólogos, ou naturalistas) que dedicam suas vidas na observação de animais em seu habitat natural para compreender (ou tentar) o modo de vida das criaturas observadas. Então aqui vai o meu relatório.
07/02/2004 | |
Morte
| A morte, que a tantos já fez tombar
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terça-feira, fevereiro 01, 2005
Eterno Embate
| O Mal tornou-se tão forte que acabou por vencer o Bem. Aprisionou-o nos porões fétidos e sombrios de sua morada de onde o Bem não podia se manifestar. Assim, o Mal triunfou soberano sobre a Terra, após incontáveis anos de conflito, finalmente estava no poder. |
Sob seu reinado, os simpatizantes do Bem foram aniquilados, exterminados, caíram todos à sombra da maldade. A legião do Mal estava estabelecida. Com a total derrocada dos benignos, os malignos não tinham mais com quem lutar, ou mesmo, um porquê para lutar. E então tudo ficou em paz. O Mal procurou inimigos, em vão, todos sob seu poder, que era tudo o que existia, lhe eram fiéis e subordinados e não ousavam desafiá-lo. Assim a maldade, razão de ser do Mal, estava em decadência. Não era praticada, e por conseqüência, o poder do Mal ia gradativamente se exaurindo. Sozinho, em sua morada, o Mal, pela primeira vez em sua existência, adormeceu. Ao acordar, não se sabe quanto depois, sentia-se forte novamente, revigorado. Mas não como antes. Não lhe interessava mais a maldade, mas sim, fazer o bem. A ausência de maldade transformara-lhe no Bem, e, por conseqüência, seus subordinados transformaram-se em seres benignos. Lembrou-se do cativo no seu porão, e logo apressou-se em libertá-lo. Ao abrir as portas do asqueroso cativeiro, sentiu um duro golpe da maligna espada que um dia empunhara. O Mal ressurgia das trevas, ávido por vingança.
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Sortilégios
- Já vai ? Que tal vir até aqui, não sabe o que tem a perder.
Olhei assustado para a porta. Mirei o chão abaixo da porta, que, como outras tantas portas de banheiro público, não vão até o chão. Nada, nenhum sinal de pés ali. Ajudado pela cerveja, imaginei a dona da voz em posição sexual sobre o vaso sanitário, a me esperar, e não pensei duas vezes:
- Opa! Só se for agora! – respondi, abrindo a porta.
Para meu espanto, nada, ninguém, apenas um maldito vaso sanitário habitava aquele cubículo imundo. Abri as outras portas, nada. “Acho que já bebi demais” – pensei. E fui saindo, ainda intrigado. Na porta do banheiro surpresa maior me esperava. Um sorriso, ainda mais enigmático que o da Mona Lisa, estampava o rosto de uma belíssima loira, que olhava penetrantemente nos meus olhos. Devia ter uns vinte e pouco anos. Era o tipo de mulher que habita todos os sonhos sexuais masculinos, e talvez até femininos. Trajava uma roupa espantosamente extravagante. Saia preta, digo mini-saia, digo ainda micro-saia, de couro que combinava com a bota que chegava até os seus joelhos. A blusa rosa, com um decote abismal, deixava à mostra boa parte do farto par de seios que carregava. Seus cabelos – loiros, lisos e compridos – pareciam fios de ouro que caíam da sua pequena cabeça.
- Olá, achou que eu tinha ido embora ? – disse ela com a mesma voz que ouvi no banheiro.
- Não..., sim..., é, sei lá, como foi que tu saiu de lá ?
- Isso não importa, o que importa é que estou aqui, a seu bel-prazer – respondeu lançado-me um olhar ainda mais sedutor.
- Égua doido! – exclamei – Deus enfim olhou para mim.
Tentei pegar a sua mão, ela recuou.
- Que foi ? Não era ao meu bel-prazer ?
- Calminha aí, apenas me siga e terá o que deseja – respondeu-me já indo em direção as pessoas que dançavam aquele maldito forró.
- Tá bom então – disse dando de ombros – mas vou logo avisando, não sei dançar isso aí.
- Falei que terá o que deseja, e certamente sei que o que tu queres não é dançar essa droga de música.
- Taí, acho que vou me apaixonar. – o entusiasmo tomava conta de mim – Como é mesmo teu nome ?
- Trilian, pode me chamar assim.
- Trilian!? É nome ou apelido? – perguntei sem pensar.
Enquanto conversávamos sobre nomes e outras abobrinhas percebi que Trilian não chamava atenção de ninguém. Inexplicavelmente as pessoas, principalmente os homens, ignoravam a presença daquele rosto, daquele corpo e ainda daquelas roupas! Impossível, inconcebível, inaceitável.
- Vamos, precisamos andar mais rápido.
- Pra quê a pressa Trilian, a noite é uma criança – ponderei
- Não podem saber que eu não estou em casa.
- Estamos indo para sua casa!? – perguntei serrando as sobrancelhas
- É, digamos que sim – respondeu e continuou andando
- Mas como vamos para lá, tu tens carro? Eu estou de carona.
- Apenas siga-me se vais querer realmente alguma coisa.
E assim foi feito. Fui seguindo-a como faz o urubu à espreita de um moribundo. A música ia ficando cada vez mais baixa, as luzes cada vez mais fracas. Pensei em perguntar para onde raios estávamos indo, mas preferi não arriscar. Seguimos pelo campus, passamos pelo prédio da administração, do banco, até pela biblioteca que já ficava bem distante dos outros prédios e da festa que já não dava sinais de existência. E ela no mesmo passo, apressada, determinada, nem sequer olhava para trás, sua bela anca fazia movimentos hipnotizantes e a esta altura eu já estava sob efeito hipnótico, imaginando por onde começaria o banquete. Olhei ao meu redor e vi que estávamos indo em direção ao prédio de anatomia, depois dele só mais alguns prédios e estaríamos fora do campus. A uma pequena distância do prédio ela enfim virou-se. Tentei me aproximar, ela fez sinal que parasse. Ia falar, pediu-me silêncio e pôs-se a despir-se. Os botões do pequeno tecido rosa que cobria-lhe os seios iam sendo arrancados, um a um, com força e delicadeza. O sexto e derradeiro botão caiu e meus olhos desejaram ser boca, língua. Grandes, mas pequenos, moles, porém duros. Daqueles pequenos orbes róseos mel deveria ser derramado. Percebendo minha intenção de chegar mais perto, ela pediu-me calma, que primeiro deleitaria meus olhos, depois todo o resto. Pediu que eu me sentasse e colocasse as mãos no chão, com as palmas para baixo. Sem entender muito, não hesitei. Ela se aproximou. Minhas pernas, esticadas e juntas ao chão, passaram pelo vão das suas, que caminhavam abertas em minha direção. A centímetros de tocar-me a face com sua genitália parou e pousou as solas das suas longas botas sobre as minhas mãos prendendo-as junto ao chão. Incrivelmente o peso sobre as minhas mãos parecia não existir, mas, ainda que imperceptível, manteve-as no lugar. Começou a rebolar de um jeito de causar inveja a qualquer mulher que faz desse ato um ofício. E subia e descia, e descia e subia. Eu, em êxtase, mudo, enfeitiçado. De súbito, arrancou a saia de uma só vez. Minha reação imediata foi de levar a boca de encontro àquele triângulo dos prazeres. Fui contido pela atenta sola de sua bota que rápido apoiou-se sobre meu peito, e, lentamente, foi levando-me ao chão. Eu deitado, ela em pé, completamente nua, exceto pela bota que atava-me as mãos. Remexeu-se mais um pouco. E então veio o gran finale. Virou-se, ficando de costas, como ainda não tinha feito sem roupas, mas ainda com os pés a me prender, obviamente invertendo os pares pé-mão. E mexia os glúteos de maneira esplendorosamente sensual. Suas nádegas pareciam ter sido “photoshopadas” como fazem com as famosas das revistas, mas, aqui, o photoshoper era Deus, ou o diabo. Mirou-me, com o sorriso marcante no rosto, deu uma piscadela e mandou um beijo. Sem dobrar os joelhos, lentamente foi baixando, de uma das botas, o zíper que ia até a metade de sua perna. Repetiu o espetáculo com a outra bota. Virou-se novamente e, deitando-se sobre mim, sussurrou ao meu ouvido na mais bela e sensual voz que já viajou por esse ar que nos circunda:
- Agora venha e me possua, por favor me possua, não tenha medo.
Não tive tempo de falar nada. Ela levantou, chamou-me gestualmente e correu em direção ao prédio de anatomia, logo em frente. Corri atrás numa velocidade que me daria o recorde dos cem metros rasos facilmente. Mas logo o sonho tornou-se pesadelo. Quando contornei a esquina que ela acabara de dobrar, veio o susto. Um corpo feminino, inerte, pálido, nu, jazia no chão. Olhei ao redor, não a vi. Gritei por ela, nada. Não podia ser ela, não era seu belo corpo ali estendido. Fitei o rosto do cadáver, não era realmente o seu rosto, mas o sorriso, ah o sorriso era inconfundível. Um horror descomunal tomou conta de mim a ponto de fazer-me tombar. Entre o sorriso que me fez inconsciente e a hora que comecei a escrever essa narrativa, nada mais lembro.
* Publicado na antologia de contos BRAINSTORM, pela Editora Andross
Conto de Natal
Desforço
| Deseja dizer alguma coisa antes da execução? |
Um dos agentes mergulhou uma esponja em um balde, raso d'água, que estava ao lado da mortífera cadeira. Pousou a esponja encharcada na cabeça do condenado, exatamente na região circular que, horas antes, tinha sido lambida por uma navalha. Finalmente cobriu-a com uma espécie de solidéu metálico atando-o, com tiras de couro, que se entrelaçavam sob o queixo protuberante do infeliz homem. A respiração ofegante por trás do capuz negro que cobria-lhe a face era cada vez mais forte. O agente Stan, que estava no comando ali, acenou para uma cabine que ficava atrás dos familiares e amigos da vítima que acompanhavam a execução. Quando o homem começou a se debater na cadeira, atingido por uma estupenda descarga elétrica, que enfraqueceu até a iluminação, tornando-a intermitente, uma estrondosa e aterrorizante gargalhada ecoou pelos quatro cantos do recinto. Todos levantaram-se, horrorizados, olhavam-se estupefatos, gritos de horror misturaram-se aos gritos de dor do homem que fritava na cadeira e, ainda, àquela gargalhada dos infernos que não cessava, pelo contrário, tornava-se cada vez mais ruidosa, aumentando proporcionalmente ao desespero do condenado e das pessoas que o circundava. Stan, não menos assustado que os outros, ordenou que se cortasse a descarga elétrica e, quase que concomitantemente ao cessar da dor do condenado, um silêncio sepulcral tomou conta do lugar. Todos voltaram a se acomodar, ainda chocados pelo episódio dantesco que acabaram de presenciar. Confirmada a morte do condenado, Stan, solenemente, encerrou a cerimônia. Ao abrir a porta para que todos saíssem, deparou-se com algo escrito na parte exterior da porta: "A vingança é um prato que se come frito. J." | |



